FALTA DE INCENTIVOS VS PRIVILÉGIOS NO ESPORTE

Torna-se necessário falar sobre uma realidade extremamente sensível, mas que precisa ser dita: a falta de incentivos em contraste com os privilégios existentes no sistema esportivo.
O atleta e o profissional do esporte precisam compreender que incentivo e privilégio são coisas completamente diferentes. Incentivo está relacionado à criação de oportunidades, estrutura, acesso e desenvolvimento coletivo.
Já o privilégio ocorre quando determinados grupos ou pessoas recebem vantagens exclusivas em detrimento de outros, muitas vezes por influência política, econômica ou relacional.
Infelizmente, a falta de incentivo ao esporte é um problema histórico e cultural no Brasil. Embora existam programas governamentais, leis de incentivo e investimentos privados, ainda é enorme o número de atletas que perecem sem oportunidades mínimas de desenvolvimento.
O esporte brasileiro possui potencial gigantesco, mas enfrenta obstáculos estruturais que impedem milhares de talentos de alcançarem o alto rendimento.
A própria Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) buscou modernizar esse cenário ao instituir o Sistema Nacional do Esporte (SINESP) e o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Esportivos (SNIIE), estruturas que passaram a funcionar como pilares da política esportiva nacional.
O SINESP foi concebido com lógica semelhante à do SUS e do SUAS, fundamentando-se na articulação federativa, descentralização das ações esportivas, gestão compartilhada, cooperação técnica e financiamento entre União, Estados e Municípios. Em tese, esse modelo permitiria reduzir desigualdades regionais, fortalecer a governança esportiva e ampliar o acesso ao esporte independentemente da condição socioeconômica ou localização geográfica do cidadão.
Na teoria, o sistema é extremamente relevante.
Na prática, porém, a realidade ainda é muito diferente.
O acesso ao esporte continua desigual. Existem regiões sem estrutura mínima, ausência de centros esportivos, escassez de profissionais qualificados e carência de políticas públicas permanentes.
Isso demonstra uma grande incongruência entre aquilo que a legislação prevê e aquilo que efetivamente chega à população.
A falta de incentivo ao esporte não gera prejuízo apenas esportivo. Ela impacta diretamente áreas como educação, saúde pública, desenvolvimento humano e segurança social.
Estudos científicos apontam que a prática esportiva reduz índices de evasão escolar, criminalidade, uso de drogas e transtornos emocionais, além de melhorar indicadores de saúde física e mental. O esporte é reconhecido mundialmente como ferramenta de inclusão social e transformação humana.
Entretanto, quando faltam políticas efetivas, milhares de jovens acabam enfrentando o processo sozinhos.
E essa ausência de suporte não começa apenas no poder público. Muitas vezes, ela nasce dentro do próprio ambiente familiar e social. O atleta treina, se esforça, abdica de momentos pessoais, investe recursos financeiros e emocionais, mas não encontra incentivo adequado da comissão técnica, do clube, da gestão esportiva ou das pessoas ao seu redor.
É evidente que a responsabilidade pelo crescimento não pode ser totalmente transferida a terceiros. Contudo, também é verdade que dificilmente um atleta conseguirá se desenvolver plenamente sem estrutura, suporte e condições mínimas de trabalho.
Dentro desse contexto, surge outro problema ainda mais delicado: os privilégios.
O esporte movimenta bilhões de reais no Brasil e no mundo. Recursos públicos, patrocínios privados, leis de incentivo, direitos de transmissão, verbas institucionais e investimentos circulam constantemente dentro do sistema esportivo.
Em tese, esses valores deveriam ser reinvestidos no desenvolvimento da modalidade, na formação de atletas, na ampliação do acesso ao esporte e no fortalecimento das categorias de base.
Porém, no mundo real, nem sempre isso acontece.
Infelizmente, existem casos de favorecimentos, conflitos de interesse, desvios de finalidade e esquemas internos que comprometem a distribuição correta desses recursos. A corrupção esportiva não acontece apenas de forma explícita ou escancarada.
Muitas vezes ela é silenciosa, disfarçada em favorecimentos políticos, trocas de favores, indicações estratégicas, concentração de oportunidades e decisões tomadas para beneficiar determinados grupos.
Essa é uma das formas mais perigosas de corrupção dentro do esporte: aquela que se camufla de normalidade.
Quando recursos públicos ou privados deixam de chegar à base esportiva, quem sofre diretamente são justamente os atletas que mais necessitam de incentivo. O atleta amador, o jovem periférico, o atleta paralímpico e os projetos sociais acabam ficando na ponta mais frágil do sistema.
A própria Lei de Incentivo ao Esporte, criada para democratizar investimentos em projetos esportivos, institutos e ONGs, muitas vezes enfrenta excesso de burocracia, dificuldades técnicas e barreiras administrativas que acabam favorecendo organizações já estruturadas, enquanto pequenos projetos sobrevivem praticamente por esforço comunitário.
Existe, portanto, um abismo entre o mundo ideal e o mundo real.
O esporte é um instrumento extraordinário de transformação social, ressocialização, saúde e desenvolvimento humano. Ao mesmo tempo, porém, também se tornou um ambiente marcado por desigualdades, disputas políticas e concentração de poder.
Enquanto alguns desfrutam de privilégios oriundos do sistema esportivo, outros permanecem invisíveis, sem acesso mínimo a oportunidades.
E isso levanta uma reflexão extremamente importante:
O sistema esportivo foi criado para desenvolver atletas ou para manter estruturas de poder?
Essa pergunta se torna ainda mais sensível quando analisamos a ocupação de cargos estratégicos no esporte. Em muitos casos, secretarias municipais e estaduais de esporte acabam sendo ocupadas por indicações políticas, e não necessariamente por profissionais técnicos, estudiosos ou pessoas verdadeiramente ligadas ao desenvolvimento esportivo.
Isso não significa que toda indicação política seja negativa. O problema surge quando critérios técnicos deixam de existir e o esporte passa a ser utilizado apenas como instrumento político-eleitoral.
Os reflexos disso aparecem diretamente na vida dos atletas.
A própria Lei Geral do Esporte estabelece princípios fundamentais como democratização do acesso, igualdade de oportunidades, transparência, integridade, moralidade, proteção do atleta e desenvolvimento humano.
Contudo, na prática, muitos atletas ainda enfrentam seletividade, favorecimentos internos, ausência de critérios transparentes, concentração política de decisões e distribuição desigual de benefícios.
Atletas paralímpicos, por exemplo, frequentemente relatam dificuldades relacionadas a mudanças constantes de critérios técnicos, índices esportivos e programas de incentivo, o que impacta diretamente o acesso ao Bolsa Atleta e a outras políticas públicas.
Além disso, muitos profissionais do esporte e atletas percebem que as melhores oportunidades, em determinados contextos, surgem através de networking político, articulações institucionais e relações de influência.
Isso, infelizmente, faz parte dos bastidores do esporte.
Entretanto, é importante deixar claro: a existência de privilégios não impede o crescimento de atletas e profissionais honestos, éticos e preparados. O caminho pode ser mais difícil, mais lento e mais desgastante, mas continua sendo possível crescer através do trabalho sério, do conhecimento, da resiliência e da construção de credibilidade.
O problema não está em possuir relacionamento, networking ou articulação política. O problema está quando esses mecanismos são utilizados para excluir, perseguir, favorecer indevidamente ou impedir igualdade mínima de oportunidades.
O esporte precisa de gestão, liderança e política.
Mas precisa, principalmente, de responsabilidade humana.
Falar sobre falta de incentivo versus privilégios é falar sobre uma realidade complexa, profunda e necessária. É mostrar ao leitor que, desde as categorias de base até o alto rendimento, existem estruturas que favorecem alguns enquanto dificultam o crescimento de outros.
E talvez justamente por isso seja tão importante manter princípios, ética e integridade dentro do esporte.
Porque, no fim, resultados podem ser momentâneos, cargos podem passar e estruturas podem mudar.
Mas o trabalho honesto, o caráter e a consciência limpa permanecem.
Artigo escrito pelo Dr. Carlos Alexandre Ribeiro, especialista em Direito Desportivo, pós graduado em gestão publica e políticas públicas, presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB de Santo André e CEO do HÁ VIDA NO ESPORTE.





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