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LESÕES ESCONDIDAS E DOR SILENCIOSA

25 de abr.
4 min de leitura


Brazão, Goleiro do Santos Futebol Clube perde seu pai para o câncer.
Brazão, Goleiro do Santos Futebol Clube perde seu pai para o câncer.

Torna-se inevitável avançar para um dos aspectos mais silenciosos e, ao mesmo tempo, mais devastadores da carreira esportiva: as lesões escondidas e as dores silenciosas.


Embora o senso comum associe o sofrimento do atleta às lesões físicas — como rupturas ligamentares, fraturas ou distensões musculares —, a ciência do esporte e a psicologia contemporânea apontam que as lesões emocionais podem ser igualmente, ou até mais, incapacitantes. 


Diferentemente das lesões visíveis, que recebem tratamento médico, acompanhamento fisioterapêutico e tempo de recuperação definido, as lesões emocionais se instalam de forma silenciosa, muitas vezes negligenciadas, mascaradas pela necessidade constante de performar.


Do ponto de vista científico, essas dores silenciosas são compreendidas como processos biopsicossociais complexos, que envolvem desregulação do sistema nervoso central, alterações hormonais — especialmente no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal — e impactos diretos na saúde mental e no desempenho esportivo. 


Estudos recentes em psicologia do esporte indicam que entre 25% e 35% dos atletas de alto rendimento apresentam sintomas clínicos de ansiedade, depressão ou esgotamento emocional ao longo da carreira. 


Quando fatores como pressão por resultados, luto, frustrações recorrentes e perda de rede de apoio são adicionados, esse número pode ultrapassar 40% em determinados contextos competitivos.


Além disso, pesquisas internacionais apontam que aproximadamente 30% dos atletas relatam já terem competido em estados emocionais debilitados, ocultando sofrimento psicológico por medo de perder espaço, contratos ou credibilidade. 

Esse dado revela uma cultura ainda presente no esporte: a de que demonstrar fragilidade é sinônimo de fraqueza, quando, na realidade, é um sinal humano que exige atenção e cuidado.


Essas lesões escondidas não surgem do nada. Elas são, muitas vezes, o resultado acumulado de experiências como frustrações esportivas, promessas não cumpridas, perdas financeiras, decepções com pessoas de confiança, lesões físicas mal resolvidas e, sobretudo, a solidão que acompanha muitos atletas em suas trajetórias. Soma-se a isso o impacto do luto — seja pela perda de entes queridos, seja pela “morte simbólica” de sonhos interrompidos —, que, segundo estudos da área, pode afetar diretamente o desempenho e aumentar em até 20% o risco de abandono precoce da carreira esportiva.

Nesse cenário, o atleta passa a viver uma dualidade constante: por fora, demonstra força, resiliência e alto desempenho; por dentro, enfrenta inseguranças, medos, angústias e uma dor que não encontra espaço para ser expressa. 


É a chamada dor silenciosa — aquela que não aparece nas estatísticas de lesão, não é exibida nas transmissões esportivas, mas que corrói, de forma gradual, a saúde emocional e a identidade do indivíduo.


A psicologia do esporte explica que essas dores se intensificam quando o atleta percebe que as demandas do ambiente — como pressão da torcida, cobranças internas, expectativas familiares e exigências contratuais — superam seus recursos emocionais para lidar com elas. 


Esse desequilíbrio pode gerar ansiedade crônica, queda de rendimento, distúrbios do sono, irritabilidade e, em casos mais graves, burnout esportivo. Estima-se que entre 10% e 15% dos atletas de elite já tenham apresentado sintomas claros de burnout ao longo da carreira, especialmente em modalidades de alta exigência competitiva.


Outro fator relevante é a perda da rede de apoio. Estudos demonstram que atletas com suporte familiar, psicológico e social estruturado apresentam até 40% menos risco de desenvolver transtornos emocionais severos. 

Em contrapartida, aqueles que enfrentam isolamento, mudanças frequentes de ambiente ou relações instáveis no esporte tendem a sofrer mais intensamente com essas dores invisíveis.


Dentro dessa realidade, o recomeço se torna um elemento central. E recomeçar, no esporte, não é apenas voltar a treinar ou competir — é um processo profundo de reconstrução emocional, mental e, muitas vezes, espiritual. 

Recomeçar é reconhecer perdas, aceitar frustrações, ressignificar caminhos e desenvolver novas estratégias. É lidar com a dor sem negá-la, mas também sem permitir que ela paralise o avanço.


Esse processo, embora doloroso, pode ser transformador. A literatura científica aponta que atletas que desenvolvem habilidades como resiliência, inteligência emocional e autocompaixão conseguem não apenas retornar ao esporte, mas também alcançar níveis mais consistentes de performance e bem-estar a longo prazo. 


Isso reforça a ideia de que a dor, quando bem compreendida e trabalhada, pode deixar de ser um fator de queda e se tornar um elemento de crescimento.


Ainda assim, é preciso dizer com clareza: não é saudável romantizar o sofrimento. A dor silenciosa não deve ser normalizada como parte obrigatória do sucesso esportivo. 

O atleta e o profissional do esporte são, antes de qualquer coisa, seres humanos. Nenhum título, contrato ou reconhecimento pode ser mais valioso do que a integridade física, mental e emocional de uma pessoa.


A cosmovisão esportiva proposta ao longo desta obra reforça exatamente esse ponto: o “personagem atleta” é transitório, mas o ser humano é permanente. Quando essa ordem se inverte, o risco de colapso — seja emocional, financeiro ou profissional — se torna significativamente maior.


Portanto, compreender as lesões escondidas e as dores silenciosas não é apenas ampliar o olhar sobre o esporte, mas humanizá-lo. É reconhecer que por trás de cada desempenho existe uma história, por trás de cada resultado existe um processo e, por trás de cada atleta, existe uma vida que precisa ser cuidada em sua totalidade.


Se este capítulo conseguiu ampliar essa visão, então ele cumpriu seu papel: provocar reflexão, gerar consciência e preparar o caminho para o próximo passo desta jornada — porque entender os bastidores é essencial, mas aprender a viver de forma equilibrada dentro deles é o que, de fato, permite afirmar, com convicção, que há vida no esporte.


Artigo escrito pelo Dr. Carlos Alexandre Ribeiro, advogado especializado em Direito Desportivo, CEO do Há Vida no Esporte.

 
 
 

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